All for love

14 abril 2006

O camponês e o burro

Era uma vez um camponês que tinha um burro. Um dia o animal caiu acidentalmente num poço e não conseguia sair de lá. O camponês tentou várias vezes libertar o burro, mas não era possível. Pediu ajuda a uns amigos, mas mesmo assim não conseguiram nada. Ao fim de vários dias desistiu. O poço estava seco, o burro estava velho e a única solução era enterrá-lo lá.
Pegou numa pá e começou a deitar terra ao poço. O burro ficou desesperado ao aperceber-se do que estava a acontecer. Começou a zurrar cheio de amargura. Fazia dó ao camponês, mas ele não via outra solução. Até que num momento determinado deixou de ouvir o animal. Aproximou-se com temor da boca do poço para contemplar o cemitério. Com espanto viu algo insólito. Cada vez que o burro recebia a terra em cima, sacudia-a com decisão e pisava sobre ela. Com esta operação, na qual estava profundamente concentrado, já tinha subido mais de um metro dentro do poço. O camponês sorriu. Continuou a deitar terra e em pouco tempo o burro estava cá fora.
Todos nós temos dificuldades na vida. A diferença está no modo como reagimos diante delas. Existem pessoas que passam a existência a queixar-se, deixando-se soterrar pelas contrariedades. São pessimistas por natureza. Olham com ironia para aqueles que parecem felizes. Pensam que são ingénuos, doidos, que ainda não descobriram que esta vida não tem nenhum sentido. Não respeitam nada. Para eles não há nada que seja sagrado. Tudo se pode banalizar, ridicularizar, porque nada tem sentido. E se tem, não pensam dedicar nem cinco minutos a pensar nele. Talvez tivessem de mudar de vida, de atitude. Isso exige esforço e dá trabalho. Nada vale a pena, porque a alma é pequena.
Um cristão sabe que isso não é verdade. Sabe que foi criado por Deus por amor e está chamado a viver com Ele para sempre na eternidade. Sabe que a sua vida tem um sentido e que as dificuldades que lhe surgem também. Tem uma profunda confiança em Deus e não duvida que como diz São Paulo, “tudo é para bem” (Rom 8, 28). Esta certeza fá-lo encarar as contrariedades como aquilo que são: uma oportunidade para crescer. Crescer no amor a Deus e no amor ao próximo. Por isso, quando as dificuldades aparecem, sacode-as de cima com oração, esforço e optimismo. Também com a serenidade de quem sabe que a felicidade em plenitude não pode ser alcançada nesta vida. Está reservada para a futura.
E depois pisa essas dificuldades e assim robustece a sua fé e aproxima-se mais da vida que não terá fim. Diante das contradições não perde a paz, porque sabe que tudo procede do amor. Tudo está ordenado à salvação do homem, e Deus, que é Amor, não permite nada que não seja com essa finalidade.

De “Voz do Sado”