Eu estou bem, os outros é que não
“Todos conhecemos pessoas assim. Não têm nenhuma consciência dos seus problemas e são incapazes de se por em causa. Defendem que não vale a pena comportarem-se de forma diferente do habitual, porque os outros é que têm que mudar. Muitas vezes pensam mesmo que tudo se organiza para as prejudicar e que estranhos acordos se fazem para as denegrir. Noutras ocasiões têm-se em alta conta e apenas se relacionam com aqueles que os consideram únicos ou excepcionais.
Podem ter fantasias grandiosas e necessidade permanente de serem admirados, não sendo raro que exibam comportamentos arrogantes, sobretudo para com os mais fracos. Não sentem empatia pelos outros e usam-nos para atingir os seus próprios fins. Estão muitas vezes dominados por sentimentos de inveja, embora digam também que essa é uma questão de quem está próximo.
A grandeza que sempre querem mostrar esconde em certas ocasiões um sentimento de inadequação face ao mundo que as rodeia. Quando não conseguem disfarçar essa fraqueza, respondem com raiva intensa e ficam muito fragilizados, sentindo-se profundamente feridos e injustiçados.
As relações interpessoais destas pessoas tornam-se voláteis. Costumam começar com um intenso envolvimento e idealização do outro, a que depressa se segue a sua desvalorização e crítica, sem nunca se porem em causa.
Existem variantes interessantes dentro do mesmo tipo. Por exemplo, podem ser pessoas muito manipuladoras na sua forma de tentarem obter a atenção dos outros, mudando rápido os seus comportamentos, que levam a justiça a intervir. Nesse caso podem mentir sem escrúpulo ou repetir os actos ilegais sem qualquer remorso, continuando sem consciência das implicações que o seu comportamento está a ter nos outros. Acima de tudo, não sentem culpa e os comentários que recebem dos outros, com o intuito de os corrigir, não são tidos em conta sob nenhuma forma.
Ao contrário de outras pessoas que sofrem de sintomas psiquiátricos e que estão preocupadas com os seus sintomas, sentidos como estranhos e perturbadores, os indivíduos que descrevemos acham que nada está mal nas suas vidas. Um doente com crise de pânico está esmagado com a ansiedade que sente e procura ajuda, um doente com depressão pode sentir-se tão mal que pensa no suicídio. Nas situações que referimos, quem precisa de ajuda ou de mudar são os outros.
Falamos afinal de perturbações da personalidade, uma característica diagnóstica das classificações psiquiátricas que tem vindo a aumentar e que tem mau prognóstico, pois como já vimos essas pessoas não se põe em causa nem sentem sofrimento
Entre nós, servem de exemplo ex-autarcas, dirigentes de clubes desportivos ou alguns chefes dispersos por vários locais, a que uma comunicação social cada vez mais sensacionalista dá espaço crescente. Ora convinha que os jornais, as rádios e a televisão percebessem que estas pessoas, pela sua frieza, capacidade de manipulação e falta de escrúpulos, são capazes de levar atrás de si muita gente, porque prometem, não se importam de não cumprir e além do mais se fazem de vítimas, não estando nada interessadas, no fundo, no bem-estar dos outros, já que só vivem para si próprias.
Não se trata apenas de um problema da psiquiatria, é uma questão de sobrevivência das comunidades a que precisamos dar importância.”
daniel.sampaio@xis.publico.pt
Podem ter fantasias grandiosas e necessidade permanente de serem admirados, não sendo raro que exibam comportamentos arrogantes, sobretudo para com os mais fracos. Não sentem empatia pelos outros e usam-nos para atingir os seus próprios fins. Estão muitas vezes dominados por sentimentos de inveja, embora digam também que essa é uma questão de quem está próximo.
A grandeza que sempre querem mostrar esconde em certas ocasiões um sentimento de inadequação face ao mundo que as rodeia. Quando não conseguem disfarçar essa fraqueza, respondem com raiva intensa e ficam muito fragilizados, sentindo-se profundamente feridos e injustiçados.
As relações interpessoais destas pessoas tornam-se voláteis. Costumam começar com um intenso envolvimento e idealização do outro, a que depressa se segue a sua desvalorização e crítica, sem nunca se porem em causa.
Existem variantes interessantes dentro do mesmo tipo. Por exemplo, podem ser pessoas muito manipuladoras na sua forma de tentarem obter a atenção dos outros, mudando rápido os seus comportamentos, que levam a justiça a intervir. Nesse caso podem mentir sem escrúpulo ou repetir os actos ilegais sem qualquer remorso, continuando sem consciência das implicações que o seu comportamento está a ter nos outros. Acima de tudo, não sentem culpa e os comentários que recebem dos outros, com o intuito de os corrigir, não são tidos em conta sob nenhuma forma.
Ao contrário de outras pessoas que sofrem de sintomas psiquiátricos e que estão preocupadas com os seus sintomas, sentidos como estranhos e perturbadores, os indivíduos que descrevemos acham que nada está mal nas suas vidas. Um doente com crise de pânico está esmagado com a ansiedade que sente e procura ajuda, um doente com depressão pode sentir-se tão mal que pensa no suicídio. Nas situações que referimos, quem precisa de ajuda ou de mudar são os outros.
Falamos afinal de perturbações da personalidade, uma característica diagnóstica das classificações psiquiátricas que tem vindo a aumentar e que tem mau prognóstico, pois como já vimos essas pessoas não se põe em causa nem sentem sofrimento
Entre nós, servem de exemplo ex-autarcas, dirigentes de clubes desportivos ou alguns chefes dispersos por vários locais, a que uma comunicação social cada vez mais sensacionalista dá espaço crescente. Ora convinha que os jornais, as rádios e a televisão percebessem que estas pessoas, pela sua frieza, capacidade de manipulação e falta de escrúpulos, são capazes de levar atrás de si muita gente, porque prometem, não se importam de não cumprir e além do mais se fazem de vítimas, não estando nada interessadas, no fundo, no bem-estar dos outros, já que só vivem para si próprias.
Não se trata apenas de um problema da psiquiatria, é uma questão de sobrevivência das comunidades a que precisamos dar importância.”
daniel.sampaio@xis.publico.pt


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