All for love

13 agosto 2006

O amor fino não há-de ter "porquê" nem "para quê". Se amo porque me amam, é obrigação, faço o que devo; se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há-de ser o amor para ser fino? Amo porque amo e para amar.

Padre António Vieira

11 agosto 2006

Recordando...um dia na colónia...


O dia ainda vai longe, o despertador toca e deixa-me em sobressalto. São quatro e meia da manhã, uma hora depois daquela em que decidi descansar, na esperança que a febre de uma criança fosse baixar, e todos pudéssemos repousar em paz. A verdade é que a febre continua a subir e no meio da aflição decido que o melhor será levá-lo ao Hospital. Ainda assim, a decisão não pode ser tomada exclusivamente por mim e tento entender as opiniões dos dois sobreviventes daquela noite, que ainda resistem acordados. Vamos acordar o “chefe” e lá vamos os dois a caminho do Hospital. O cansaço é evidente e tento meter conversa para tornar a viagem mais curta e a espera menos angustiante, mas em vão, as palavras quase não saem e os ouvidos quase não ouvem. Transpiro o calor da criança e da preocupação, no entanto, agora que caminhamos para o Hospital, tudo vai ficar bem.
No Hospital, e apesar de estar felizmente vazio, a espera continua, e após a observação da enfermeira, a espera pelo médico, mais meia hora em que os ponteiros quase não avançam. O meu colega já “dorme” e como eu o compreendo…mantenho-me em alerta e espero pelo som do microfone pronunciando as palavras mágicas para podermos entrar. Apesar de ainda febril e visivelmente cansado, parece respirar mais tranquilidade, tranquilidade que é mais tarde comunicada pelo médico que faz o diagnóstico de uma amigdalite. O regresso a casa é assim mais relaxado e aos poucos vamos assistindo ao amanhecer. Depois de todos termos regressado à cama verifico que ainda tenho tempo de dormir uma hora.
Quase não ouço o despertador, nem tão pouco a música que grita aos meus ouvidos, mas as crianças começam a levantar-se e abanar-me para despertar. Esta é a parte difícil, a noite foi tudo menos repousante, mas agora não há muito tempo para pensar nisso. Toca a vestir, a rezar e pequeno-almoço à vista. Sem sair do quarto uma indisposição súbita faz-me correr a casa de banho, tal a debilidade do meu organismo. Mas tenho energia suficiente para continuar e vamos para o pequeno-almoço, que decorre sem sobressaltos. A limpeza da camarata é feita pelas crianças, se bem que com pouca perfeição, ajudo e dou uns retoques, explico depois que outro monitor os acompanhará á praia e as razões da alteração. Fico então a descansar as duas horas seguintes, recebendo ao acordar a boa notícia que o meu grupo continua a ganhar. Desta vez termina o campeonato do piolho e certifico-me que, mesmo sem a minha presença, são imbatíveis.
No almoço, mais uma vez, verifico que a maior parte do meu tempo é passado a servir, digamos que não são muito esquisitos e que isto de ser uma boa equipa também requer muito sustento. Não se pode dizer que se respire silêncio no refeitório, mas um barulho aceitável.
A sesta traz a agitação do último período para escrever para o amigo secreto da camarata e algum momento de leitura, por opção do grupo a sesta foi sempre só de nome. Vou ver outras camaratas, pois a saída de algumas monitoras com aviso prévio assim o exigiu. As crianças estão agitadas, sem a vigilância apertada é o mesmo que dizer que não há grande sossego. Responsabilizo algumas crianças para ficarem vigiando as restantes enquanto regresso à minha camarata. Minutos depois já um pequeno acidente me faz regressar à camarata vizinha e um ENORME “galo” faz-me correr à cozinha. Um corre corre na procura do gelo que resolveu desaparecer na altura errada. Nada que uma garrafa de sumo bem gelada não pudesse ajudar. Não houve sesta para ninguém mas conseguiu-se restabelecer alguma calma.
Toca a espalhar o protector e vamos fazer a última visita à praia. E entre lanches, garrafões, chapéus e bolas lá fomos todos. O mar não está para simpatias e adivinhamos que a despedida da água salgada já estava feita. Toca de brincar na areia e aproveitar. As crianças estavam mais calmas, ainda que alegres e com montes de energia. Não foi preciso gritar muito, afinal elas entendem melhor a linguagem da calma, da compreensão e do sorriso. As monitoras são brindadas com um “clube de massagem dos deuses”, só precisávamos deitar e relaxar, a massagem era por conta da criançada. E que bem que soube! Afasto-me um pouco para olhar toda a malta, acabo de me recordar (“o último dia”), não mais poderia assistir a um cenário como aquele, voltar a ver aquelas caras naquele areal. Uma lágrima quer saltar, mas tento distraí-la com brincadeiras e aproveito os últimos miminhos de quem me aparece à frente.
Está na hora de regressar, uma última fotografia e toca a marchar. É o adeus à praia….ou talvez não. O banho é necessário e mais uma vez vou-me por de molho. Muito tenho para esfregar, por todo o corpo dos meninos à areia a saltitar. Os meninos sempre muito animados, a água sabe sempre bem e receber os miminhos dos monitores com certeza que também.
Depois da passagem pelo vídeo é chegada a hora de jantar e entre muito murmurinho é ver a comidinha a desaparecer, seja carne seja peixe, a praia abre sempre o apetite…Hoje não estive para muitas conversas, mas fui enviando sorrisos…é que depois da barriga cheia, o sono começa a tomar conta de mim. Não há tempo para pensar nisso, pois agora vamos passear e como é a última vez deixei uma regra desrespeitar… foi só por os pezinhos na areia. Depois de tantos pedidos e de se portarem tão bem, não consegui recusar algo que sabe tão bem. Foi o delírio por coisa tão simples, amanhã já não há nada disto, por isso toca de aproveitar. Depois de um joguinho muito simples que espalhou sorrisos por aí, a entrada para o serão… os minutinhos da confusão.
O famoso arraial com música muito animada, com a Flor e os D’zrt ninguém pára a criançada. Entre jogos e comidinha houve sempre a alegria e umas boas gargalhadas para o último serão. Passou rápido, eu bem vi o desapontamento nos olhinhos, só que já está a ficar tarde, só há tempo para mais uns miminhos.
É chegada a surpresa, e em jeitos de despedida foi saboreada com satisfação… as fotos dos nossos dias, os bons e os BONS momentos, todos positivos afinal, porque é disso que é feito uma colónia, de momentos únicos e inesquecíveis, de sorrisos e de lágrimas, tudo vivido com coração.Tudo só mais uma vez…a última oração… o último beijinho de Boa Noite…os últimos beijinhos e palavras para todos, em todas as camaratas…amanhã não há muito tempo para despedidas, é preciso aproveitar. Os olhares da despedida são tristes, fica a promessa de voltar, mas se a despedida é triste é porque valeu a pena cá estar.

10 agosto 2006

Realizado!


E o desejo dentro de mim ganha força à medida que vou crescendo e que surge a oportunidade. Fazer voluntariado é algo que ambiciono à muito tempo e se puder ser com crianças tanto melhor. Foi em busca deste sonho em tamanho mais pequeno que fui conduzida à colónia da Cáritas. Tinha algum receio de não ser capaz, de não ter energia para distribuir por todos. Enganei-me! Até porque a energia não vem só de dentro para fora, mas de fora para dentro. Aprendi muito mais do que ensinei, sorri muito mais do que chorei e o melhor de tudo foi ver-te sorrindo todos estes dias com o brilho do sol, com a calma do mar, com a pureza da areia…. É tão bom ver as crianças felizes, sobretudo depois de conhecer algumas das suas histórias tristes. A realidade pode ser muito mais dura do que aquilo que imaginamos ou do que o retrato que nos fazem de algumas destas situações de vida. Porque apesar de acreditar nessa realidade, ela é muito mais real quando vivida por nós mesmos. Felizmente ainda há muita criança saudável, mas a minha atenção inevitavelmente ficou mais por aí… perto dos doentes, com falta de amor, perto dos sonhos um pouco desfeitos, ainda que acredite tal como muitos meninos e meninas que ainda é possível realizar, nem que seja apenas nestes dias em que estamos unidos pela força do amor genuíno.
Vivi uma experiência fantástica. Apanhei uma estafa! Foi esgotante mesmo, digamos que já não sou criança e que a minha energia não é de todo comparável à delas.
Senti uma responsabilidade pesada, acho que até em certas alturas exagerada. Nem sempre fui capaz de relaxar como gostaria, nem também de ficar ao alcance dos meus colegas monitores. Digamos que entre crianças e adultos há apenas uma opção: CRIANÇAS. Amo-as inevitavelmente e as mais reguilas são as que fazem despertar mais atenção…
Consegui atingir os meus objectivos com sucesso.
Os monitores cada um a sua maneira mas com um objectivo mais ao menos comum. Encontrei por ali grandes corações abertos. Obrigado amigos! Eu sei que juntos temos o poder de construir um mundo melhor! O tão desejado mundo! E sei que sem a vossa presença este momento na colónia não teria sido tão especial.