O dia ainda vai longe, o despertador toca e deixa-me em sobressalto. São quatro e meia da manhã, uma hora depois daquela em que decidi descansar, na esperança que a febre de uma criança fosse baixar, e todos pudéssemos repousar em paz. A verdade é que a febre continua a subir e no meio da aflição decido que o melhor será levá-lo ao Hospital. Ainda assim, a decisão não pode ser tomada exclusivamente por mim e tento entender as opiniões dos dois sobreviventes daquela noite, que ainda resistem acordados. Vamos acordar o “chefe” e lá vamos os dois a caminho do Hospital. O cansaço é evidente e tento meter conversa para tornar a viagem mais curta e a espera menos angustiante, mas em vão, as palavras quase não saem e os ouvidos quase não ouvem. Transpiro o calor da criança e da preocupação, no entanto, agora que caminhamos para o Hospital, tudo vai ficar bem.
No Hospital, e apesar de estar felizmente vazio, a espera continua, e após a observação da enfermeira, a espera pelo médico, mais meia hora em que os ponteiros quase não avançam. O meu colega já “dorme” e como eu o compreendo…mantenho-me em alerta e espero pelo som do microfone pronunciando as palavras mágicas para podermos entrar. Apesar de ainda febril e visivelmente cansado, parece respirar mais tranquilidade, tranquilidade que é mais tarde comunicada pelo médico que faz o diagnóstico de uma amigdalite. O regresso a casa é assim mais relaxado e aos poucos vamos assistindo ao amanhecer. Depois de todos termos regressado à cama verifico que ainda tenho tempo de dormir uma hora.
Quase não ouço o despertador, nem tão pouco a música que grita aos meus ouvidos, mas as crianças começam a levantar-se e abanar-me para despertar. Esta é a parte difícil, a noite foi tudo menos repousante, mas agora não há muito tempo para pensar nisso. Toca a vestir, a rezar e pequeno-almoço à vista. Sem sair do quarto uma indisposição súbita faz-me correr a casa de banho, tal a debilidade do meu organismo. Mas tenho energia suficiente para continuar e vamos para o pequeno-almoço, que decorre sem sobressaltos. A limpeza da camarata é feita pelas crianças, se bem que com pouca perfeição, ajudo e dou uns retoques, explico depois que outro monitor os acompanhará á praia e as razões da alteração. Fico então a descansar as duas horas seguintes, recebendo ao acordar a boa notícia que o meu grupo continua a ganhar. Desta vez termina o campeonato do piolho e certifico-me que, mesmo sem a minha presença, são imbatíveis.
No almoço, mais uma vez, verifico que a maior parte do meu tempo é passado a servir, digamos que não são muito esquisitos e que isto de ser uma boa equipa também requer muito sustento. Não se pode dizer que se respire silêncio no refeitório, mas um barulho aceitável.
A sesta traz a agitação do último período para escrever para o amigo secreto da camarata e algum momento de leitura, por opção do grupo a sesta foi sempre só de nome. Vou ver outras camaratas, pois a saída de algumas monitoras com aviso prévio assim o exigiu. As crianças estão agitadas, sem a vigilância apertada é o mesmo que dizer que não há grande sossego. Responsabilizo algumas crianças para ficarem vigiando as restantes enquanto regresso à minha camarata. Minutos depois já um pequeno acidente me faz regressar à camarata vizinha e um ENORME “galo” faz-me correr à cozinha. Um corre corre na procura do gelo que resolveu desaparecer na altura errada. Nada que uma garrafa de sumo bem gelada não pudesse ajudar. Não houve sesta para ninguém mas conseguiu-se restabelecer alguma calma.
Toca a espalhar o protector e vamos fazer a última visita à praia. E entre lanches, garrafões, chapéus e bolas lá fomos todos. O mar não está para simpatias e adivinhamos que a despedida da água salgada já estava feita. Toca de brincar na areia e aproveitar. As crianças estavam mais calmas, ainda que alegres e com montes de energia. Não foi preciso gritar muito, afinal elas entendem melhor a linguagem da calma, da compreensão e do sorriso. As monitoras são brindadas com um “clube de massagem dos deuses”, só precisávamos deitar e relaxar, a massagem era por conta da criançada. E que bem que soube! Afasto-me um pouco para olhar toda a malta, acabo de me recordar (“o último dia”), não mais poderia assistir a um cenário como aquele, voltar a ver aquelas caras naquele areal. Uma lágrima quer saltar, mas tento distraí-la com brincadeiras e aproveito os últimos miminhos de quem me aparece à frente.
Está na hora de regressar, uma última fotografia e toca a marchar. É o adeus à praia….ou talvez não. O banho é necessário e mais uma vez vou-me por de molho. Muito tenho para esfregar, por todo o corpo dos meninos à areia a saltitar. Os meninos sempre muito animados, a água sabe sempre bem e receber os miminhos dos monitores com certeza que também.
Depois da passagem pelo vídeo é chegada a hora de jantar e entre muito murmurinho é ver a comidinha a desaparecer, seja carne seja peixe, a praia abre sempre o apetite…Hoje não estive para muitas conversas, mas fui enviando sorrisos…é que depois da barriga cheia, o sono começa a tomar conta de mim. Não há tempo para pensar nisso, pois agora vamos passear e como é a última vez deixei uma regra desrespeitar… foi só por os pezinhos na areia. Depois de tantos pedidos e de se portarem tão bem, não consegui recusar algo que sabe tão bem. Foi o delírio por coisa tão simples, amanhã já não há nada disto, por isso toca de aproveitar. Depois de um joguinho muito simples que espalhou sorrisos por aí, a entrada para o serão… os minutinhos da confusão.
O famoso arraial com música muito animada, com a Flor e os D’zrt ninguém pára a criançada. Entre jogos e comidinha houve sempre a alegria e umas boas gargalhadas para o último serão. Passou rápido, eu bem vi o desapontamento nos olhinhos, só que já está a ficar tarde, só há tempo para mais uns miminhos.
É chegada a surpresa, e em jeitos de despedida foi saboreada com satisfação… as fotos dos nossos dias, os bons e os BONS momentos, todos positivos afinal, porque é disso que é feito uma colónia, de momentos únicos e inesquecíveis, de sorrisos e de lágrimas, tudo vivido com coração.Tudo só mais uma vez…a última oração… o último beijinho de Boa Noite…os últimos beijinhos e palavras para todos, em todas as camaratas…amanhã não há muito tempo para despedidas, é preciso aproveitar. Os olhares da despedida são tristes, fica a promessa de voltar, mas se a despedida é triste é porque valeu a pena cá estar.